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sexta-feira, janeiro 13, 2006

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A fiandeira de peixes
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Sentava na terra seca, chão vermelho e batido, chão mundo espraiado.
Dizia-se um peixe — like a fish — dizia assim na fala miúda dos dias.
Plantada, sobre essa terra dobrava-se, era Abaporu enquanto comia a poeira leve e esbranquiçada daquele lugar sem rumor.
Às vezes sonhava o peixe, assim mesmo no seco da vida e da pele, do chão na aridez de existir. Sem carne. Sem nome.
Na solidão em brasa do sol puxava a fieira e ia tecendo as escamas.
Na imensidão encarnada fiava o nácar verde azulado de um corpo para o peixe que resistindo durava pouco na terra seca de seu chão. O tempo pedia: apressa-te.
Um olho de peixe surgiu, furou a noite. Sem paz e sem alento debateu-se no pó dos dias, vivendo e fiando. Teceu o mar. Teceu-se em outro peixe, que bíblico um dia multiplicou-se e derramando invadiu o solo enxuto e magro.
Mil peixes com olhos acesos e urdidos numa noite. Muitos. Do oceano as sirenas carpiram o lamento do peixe tramado.
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Já deu uma hora
Que a cruz pendeu
O sol incrisou
A terra gemeu
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Tudo revirou, adormeceu.
Era o encontro daquela terra seca com as águas desse mundo.

Um comentário:

Anônimo disse...

alberte
é um prazer saber de sua leitura, abraço
jussara salazar
jussara_salazar@yahoo.com.br

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